Quem corre sabe o quanto uma lesão na parte posterior da coxa — os famosos músculos isquiotibiais — pode ser frustrante. É o tipo de machucado que tira o atleta dos treinos, exige paciência e, muitas vezes, traz um medo enorme de reincidência na hora de voltar a acelerar o pace.

E a ciência comprova exatamente isso. Um estudo muito interessante publicado no Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports investigou a biomecânica da corrida em atletas que tiveram lesão nos isquiotibiais e já haviam retornado ao esporte. Os resultados são um alerta fundamental para todos nós.

O que o estudo investigou?

Os pesquisadores compararam o movimento e a ativação muscular, durante sprints (corridas de velocidade), de dois grupos:

  • 9 atletas que haviam se recuperado de lesão na posterior da coxa;
  • 8 atletas sem nenhum histórico dessa lesão.

O objetivo era entender se, mesmo após a "alta médica", o corpo do atleta lesionado continuava se comportando de maneira diferente. E a resposta foi sim.

O corpo compensa: as mudanças na ativação muscular e no movimento

O estudo revelou que atletas com histórico de lesão apresentam diferenças significativas na ativação dos músculos durante a corrida. O corpo cria mecanismos de defesa e altera o acionamento de músculos importantes, como o glúteo máximo, os eretores da coluna, o oblíquo externo (abdômen) e o reto femoral (parte da frente da coxa).

Além da ativação muscular, a pesquisa identificou assimetrias visíveis no movimento, incluindo:

  • Maior flexão do quadril;
  • Alteração na inclinação pélvica (o quadril "tomba" de forma diferente);
  • Rotação do joelho.

Por que isso é perigoso? (O risco de nova lesão)

Aqui entra a parte mais crítica da biomecânica: todas essas alterações posturais e de movimento fazem com que os isquiotibiais sejam colocados em uma posição muito mais alongada logo antes do pé tocar o chão (na fase final do balanço da perna).

Esse é o momento de maior tensão no músculo durante a corrida. Se ele já chega nessa fase esticado além do ideal e com a mecânica desajustada, o risco de uma nova ruptura, fisgada ou estiramento aumenta drasticamente.

A minha visão como treinadora: como evitar que a lesão volte?

A grande lição que tiramos desse estudo de caso-controle é que a reabilitação não termina quando a dor some. Voltar ao esporte exige mais do que apenas repouso e fortalecimento isolado; exige reaprender a correr com eficiência.

Para evitar que a lesão volte a assombrar seus treinos, é preciso focar em:

  • Controle motor: fazer os músculos certos "ligarem" na hora certa.
  • Correção biomecânica: observar e ajustar a postura do quadril, a aterrissagem e a cadência.
  • Fortalecimento global: glúteos fortes e um core (centro de força) estável tiram a sobrecarga da posterior da coxa.

Mesmo após retornar ao esporte, atletas com histórico de lesão nos isquiotibiais podem apresentar mudanças na mecânica da corrida e na ativação muscular, o que pode contribuir para maior risco de reincidência da lesão. Por isso, programas de reabilitação e prevenção devem focar na biomecânica da corrida e no controle muscular.

Não deixe que uma lesão mal curada mecanicamente te impeça de buscar os seus objetivos. Se você está voltando de lesão ou quer melhorar sua técnica para correr mais longe e mais rápido com segurança, o acompanhamento profissional faz toda a diferença.

Referência do artigo abordado:

Daly, C.; McCarthy Persson, U.; Twycross-Lewis, R.; Woledge, R. C.; Morrissey, D. “The biomechanics of running in athletes with previous hamstring injury: A case-control study.” Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, 2016.

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Karina Franzin

Karina Franzin

Graduada em Ed. Física e Fisioterapia | CREF 116683-G/SP

Com mais de 14 anos de experiência na corrida de rua, ajuda atletas de todos os níveis a alcançarem seus objetivos com segurança. Como especialista em periodização esportiva, desenvolve planos sob medida focados em evolução contínua, técnica e longevidade no esporte.

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